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Quando comuniquei aos meus colegas que iria abandonar o futebol, foi um choque, mas eu estava determinado a cumprir o que prometi a Deus, estávamos no ano de 1988 quando terminei a minha carreira de jogador de futebol, com 18 anos de idade. Passado poucas semanas procurei saber, na igreja, quem era a pessoa responsável pelos grupos familiares e na altura era a pastora Maria Emília, a tal que no dia da minha conversão tinha me oferecido uma bíblia. Pedi para falar com ela e recebeu-me no seu gabinete, a primeira coisa que lhe disse foi: “Eu quero pregar o evangelho e liderar um grupo familiar”. Podem imaginar o que a senhora não pensou antes de me responder, ela, na sua calma disse-me que não, porque era muito novo e teria que frequentar um curso para ser treinado, mas, mesmo assim, teria que pedir autorização ao pastor responsável, pois como era novo, ele poderia não autorizar que eu frequentasse o curso. Fiquei a aguardar a resposta, no entanto fui nesse dia para casa um pouco triste, eu que tinha deixado o futebol para servir a Deus, ofereço-me e tenho esta resposta?!!

Enquanto não tinha a resposta, e não sabia se iria frequentar o tal curso, não baixei os braços e ia a todas as reuniões da igreja, não para provar algo a alguém, mas porque gostava muito de ouvir as mensagens, lembro-me que tomava nota de tudo, escrevi cadernos e cadernos do tamanho A4 que ainda hoje os guardo, chegava a casa e ficava até de madrugada a ler a bíblia e a reler os meus apontamentos, também gostava muito das convenções, principalmente quando vinham convidados estrangeiros a pregar, lembro-me, que alguns profetizavam para pessoas especificas e diziam: “Assim diz o Senhor...”, aquilo me impressionava, ia para casa e pedia a Deus que falasse assim comigo também. No dia seguinte, voltava com essa expectativa, e sentava-me o mais à frente possível, para que Deus falasse daquele modo, certa vez, certo pregador, falou à pessoa que estava sentada à minha direita e depois à que estava sentada à minha esquerda e a mim, nada. Deus não falava comigo daquela maneira, vinha para casa desolado, com vontade de desistir, pensava que Deus não gostava de mim. 

Hoje, dou graças a Deus por nunca ter recebido profecias personalizadas, pois, com os anos, aprendi, que só dão problemas à vida das pessoas que as ouvem para si mesmo, podia contar muitas histórias tristes, casamentos que nunca deviam ter-se dado, sociedades que nunca deviam ter acontecido, decisões que nunca deviam ter sido tomadas etc, mais uma vez digo: “Glória a Deus, por nunca ter recebido uma profecia assim”. Hoje, cada vez mais, sou muito criterioso nessas coisas, certa vez alguém veio ter comigo a dizer que teve um sonho sobre a minha vida, ao qual respondi: “Não me conte, não quero ouvir”. Aprendi , que se Deus quiser falar comigo, ele sabe onde eu vivo. 

Na verdade, ao longo destes 30 anos, Deus nunca me falou do modo como por vezes oiço por aí, não quero de maneira nenhuma menosprezar nem ridicularizar, mas, por vezes oiço com cada coisa que nem ao diabo lembra. Parece que alguns, têm uma ligação directa com Deus, uma espécie de linha segura, directa ao presidente 24h. Deus está sempre a falar ou então a pessoa está sempre a sentir Deus e eu fico a pensar: “Caramba, como é que eles conseguem ouvir a Deus?”, é Jesus que aparece no quarto, é Jesus que se senta na cama, é Jesus que fala audivelmente, é o Espírito Santo que fala a cada minuto, enfim. Graças a Deus que aprendi, aprendi que as escrituras sagradas é o quanto me basta. Na verdade, Deus não precisa de aparecer a ninguém, pois o que nos tinha a dizer, já o disse. Agora a missão é fazer o que ele nos pede na sua palavra. 

Entretanto, recebi a resposta da pastora Maria Emília, podia fazer o curso, mas com uma condição: “não podia liderar um grupo familiar”. Bem, menos mal, lá fui fazer o curso, nove semanas, enquanto isso, decidi voluntariar-me para ajudar na igreja, o meu primeiro serviço foi limpar as casas de banho da igreja, fazia com muita alegria, ajuda em pequenas obras, continuava a evangelizar no meu bairro onde morava, entretanto tinha terminado o tal curso de líderes e a ordem continuava a mesma, motivo: “sou novo, é muito cedo”. 

Mas, a um certo dia, a pastora Maria Emília chama-me para falar com ela e diz-me: “Temos um grupo para você liderar, em Lisboa, na rua de São Bento, você vai começar daqui a uma semana”. Uauuu, fiquei muito contente e ao mesmo tempo admirado, então não era novo? Mas fiquei, como podem imaginar, radiante. Nessa mesma semana, fui comprar uma guitarra, dessas baratas, pois não podia faltar o louvor, mas eu não sabia tocar guitarra, nem uma nota, queria fazer barulho, estava tão contente por ir liderar um grupo familiar, que não via a hora de começar. 

O local do grupo, São Bento, tinha sido o primeiro escritório da igreja Maná, entregaram-me as chaves e era eu que tinha de abrir a porta e receber as pessoas. 

Chegou o dia, vinha de Mira-Sintra, apanhava o comboio no Cacém para a antiga estação do Rossio em Lisboa, depois ia a pé, passava por todas aquelas ruas antigas e estreitas de Lisboa até chegar à rua de São Bento, que ficava nas traseiras da Assembleia da Republica Portuguesa. O caminho do Rossio até ao escritório era um caminho mau frequentado, encontrava bêbados, prostitutas, drogados em todas as esquinas, cheguei à porta, abri a porta e o espaço tinha cerca de 40 cadeiras e pensei: “Uauu, glória Deus vou começar com 40 pessoas”. O inicio da reunião estava marcado para as 21h, chegou as 21h e não tinha aparecido ninguém, passaram mais 30 minutos da hora e nada, ninguém apareceu, estava eu e a minha guitarra, ainda por cima, não sabia tocar. 

Fechei a porta e voltei para casa, pensei: “para a semana já vêem todos”. Acreditem, andei nisto cerca de 2 meses, eu e a minha guitarra, pregava e cantava para mim mesmo durante 2 meses seguidos. Talvez alguém poderia dizer: “Mas porque é que não ia para as ruas evangelizar?” Fiz sim, mas os bêbados, drogados e as prostitutas não queriam saber. 

Até que, passado dois meses, apareceram 5 pessoas que entraram pela porta a dentro, porque tinham ouvido dizer que havia ali um grupo familiar. Eram moradores daquele bairro. Só sei que, aquele grupo cresceu, não só encheu as 40 cadeiras, mas tinham pessoas de pé, o escritório ficou cheio como um ovo. Foi assim, que dali, abrimos mais três grupos familiares naquele bairro. E a guitarra? Bem, a guitarra fazia sucesso, não perguntem como, porque até hoje não sei como as pessoas gostavam de ouvir tocar a guitarra, é mistério, podem crer!

 

Memórias de 30 anos de Evangelho - José Fidalgo

16/12/2019