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Esta alegria, não ficou apenas pela minha casa, morávamos em Mira-Sintra, um bairro social, construído para famílias que trabalhavam perto da área, meu pai trabalhava na antiga empresa cervejeira, a Cergal. Ele soube que estavam a atribuir casas novas e inscreveu-se, pouco tempo depois nos foi atribuído um andar. À medida que o bairro ia sendo construído, as famílias iam ocupando as casas, os anos passavam e o bairro começava a ter vida, novas infraestruturas, igreja, escolas, clubes socias e claro a praça, onde fazíamos as compras semanais. Não conseguimos conter a alegria da nossa salvação em Cristo Jesus. Eu, minha irmã Susana e a minha mãe, durante a semana íamos falar desta alegria que inundava o nosso coração, lembro-me que a primeira pessoa que evangelizamos foi a senhora que nos vendia os legumes, a fruta na tal praça, éramos tão inocentes, que começamos a falar de Jesus e os clientes ouviam, a principio ela resistia com as suas ideias e crenças, mas, sem sabermos quase nada do Evangelho, dizíamos: “Jesus Cristo é o caminho a verdade e a vida”, só sabíamos dizer esta frase e juntamente com : “Deus te ama”;

passado alguns dias, ela quis ir connosco à tal igreja. Aos poucos fomos falando a todas as vendedoras na praça, todos já sabiam o que andávamos a dizer, a senhora que vendia roupa interior foi evangelizada e converteu-se a Cristo também, depois foram as famílias delas, até que um dia, decidimos receber as pessoas em nossa casa e tínhamos 36 pessoas a ouvir falar de que: “Jesus é o caminho a verdade e a vida”. Como não sabíamos mais o que fazer, convidávamos a todos a irem à igreja no Domingo, o carro do meu pai e de outros vizinhos nossos, que entretanto foram evangelizados, iam sempre cheios a ponto de que se a policia mandasse parar os carros, com certeza seriámos todos multados. 

Nasceu um grupo familiar em nossa casa, sempre cheia de pessoas, os móveis, principalmente as cadeiras e os sofás foram substituídos e restaurados por várias vezes, de tanto uso. Mas não ficou por aqui, com o tempo, aquele grupo em nossa casa já não suportava o número de pessoas que vinham para ouvir o Evangelho de Jesus Cristo e assim, nasceram outros grupos no bairro, com o passado dos anos, o bairro tinha cerca de 10 grupos familiares. Impressionante o que a alegria da nossa salvação faz na vida de uma família, na vida de uma comunidade, sem sabermos quase nada, uma revolução nasceu! 

Mas nem tudo foi um mar de rosas, o "não vim trazer paz, mas espada...e os inimigos do homem são seus próprios familiares", começou. Minha mãe era muito chegada à irmã mais nova e minha madrinha de baptizado, casada com meu tio Morais, eram a família mais chegado a nós. Todos os fins de semana, saíamos para passarmos juntos, almoçávamos nos melhores restaurantes, éramos uns bons vivãs...na altura, antes de nos convertermos ao Evangelho de Cristo, fui padrinho do segundo filho deles.

A minha madrinha gostava muito de mim e eu dela. Mas, quando fomos falar com eles sobre o Evangelho de Cristo, o mesmo que falámos com as senhoras da praça em Mira Sintra, foi um choque, minha madrinha e meu tio chamaram-nos "malucos, doidos, traidores da igreja católica Romana". Foi uma discussão terrível, minha avó materna tinha falecido à pouco tempo, e usaram-na para dizer: “estávamos a trair a religião da nossa mãe”. Sabendo eu, que eles não tinham habito, como muitos portugueses, de praticar, pois, só iam à igreja em funerais, casamentos e missas do galo. Mas o que fazer? Foi muito triste aquela noite de conversa. A partir dessa noite, nosso relacionamento nunca mais foi o mesmo. O mesmo aconteceu com toda a família da parte da minha mãe, todas as irmãs e irmãos se levantaram contra a minha mãe, dizendo o mesmo, para eles, deixar a igreja católica romana era a maior vergonha, quando eles mesmos, não punham os pés na igreja. Esta era a mentalidade de muitos e penso que hoje ainda o é em certas regiões de Portugal. Se fossemos usar a linguagem moderna, diria: "fomos vitimas de Bullying religioso". Hoje o mesmo acontece dentro das igrejas evangélicas ou pentecostais, se alguém sai de uma igreja, é logo visto como um acto de rebelião ou de traição. Mas sobre isso falaremos mais à frente, em outros capítulos. 

Mas aquela alegria continuava forte dentro de nós, ficamos tristes, mas continuamos na nossa fé em Cristo e no seu Evangelho. Depois fomos à família do meu pai. Começamos pelos meus avós paternos, ainda vivos. Minha mãe não falava com a minha avó paterna há mais de 15 anos, outro milagre aconteceu; minha mãe faz as pazes com a minha avó paterna, foi algo incrivelmente sobrenatural, isso fez abrir o coração da família toda para ouvirem o Evangelho de Cristo. Naquele dia, minha avó e alguns tios meus, irmãos de meu pai converteram-se. A partir desse dia, eu ia todas as semanas falar do Evangelho na casa deles, visitava meu avô que estava doente, na cama e pouco falava, mas que antes de morrer converteu-se a Cristo. A minha avó chamava-me de padre: “lá vem o padre” dizia ela, eu ficava contente.

Mas nem toda a família paterna aceitou bem, certa altura, no norte de Portugal, na aldeia onde meu pai nasceu, fui evangelizar um tio meu que era o responsável pelas romarias da aldeia e guardava os santinhos todos, limpava-os, enfim, cuidava de tudo. Cheguei ao pé dele e comecei a falar de Jesus, ele disse que cria nele, mas depois toquei no assunto da idolatria, meu Deus, o que fui dizer...ele quase que me matou, tinha na mão uma enxada e tentou acertar-me na cabeça, por instinto desviei-me e consegui fugir. Esse meu tio, nunca mais falou comigo, disse sempre, que se me voltasse a ver, que matava-me. 

Esta aventura pela minha família acaba por ter um final mais feliz, com a conversão do meu tio mais velho, o irmão mais velho do meu pai. Meu pai também fazia anos que não falava com o meu tio, viviam ofendidos, mas quando o meu pai tomou a decisão de fazer as pazes, outro milagre aconteceu, se perdoaram e toda a família foi conduzida a Cristo. Assim se cumpre o que Cristo nos disse: “Quem crer será salvo, quem não crer será condenado”. A lição a tirar deste capítulo das minhas memórias, é que todo o cristão que verdadeiramente é salvo, não se cala, não pára de evangelizar. Por onde começar? bem o bairro, as pessoas do bairro, os vizinhos, a família é um bom começo. Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura, quem crer e for baptizado será salvo, quem não crer, será condenado. Mais uma vez vemos, que o que leva alguém ao inferno não são os pecados da pessoa, mas sim a rejeição ao Evangelho de Cristo.

14 /12/2019 - Memórias de 30 anos de Evangelho

José Fidalgo