Converti-me ao Evangelho a 18 de Maio de 1986 em Lisboa, na igreja Maná, na altura, Praça de Espanha. Tinha 16 anos de idade, um tempo difícil para a minha família, minha irmã Susana estava doente, não sabíamos do quê e na altura os médicos não sabiam como ajudá-la, meus pais, sendo católicos, procuraram ajuda a médiuns, espíritas, bruxos, feiticeiros, percorrendo o país inteiro, fizeram promessas a todos os santos padroeiros da igreja católica, iam a muitas romarias, colocavam velas acesas em altares, o santuário de Fátima era destino anual, tudo para que o milagre acontecesse na vida da minha irmã.

Podem imaginar o clima que se vivia naquela casa. Eu, sem saber muito bem o que os meus pais andavam a fazer, pois nunca os acompanhei nessas consultas a pessoas virtuosas, vivia a minha vida sempre na rua, nos Verões só ia a casa para dormir, era jogador de futebol federado, comecei por jogar num clube de bairro, o Mira-Sintra, e rapidamente passei para um melhor, fui contratado para jogar no Casa Pia, na altura, um clube, que a nível de jovens, era considerado um dos melhores. Depois, o meu Benfica, sendo federado e com cartão da federação, podia entrar nos estádios sem pagar, não havia um fim de semana que não fosse ver ao vivo os jogos, quando não era o Benfica, era o Estrela da Amadora e claro, o meu sonho, ser jogador de futebol profissional, o Néné do Benfica, era o meu ídolo, nunca sujava a roupa e marcava muitos golos, queria ser como ele, pois também, eu jogava a ponta de lança.

Foi quando, alguém, curiosamente, numa dessas consultas, a médium disse a meus país, que tinha de ir a um lugar, onde pessoas eram curadas e deu-lhes a morada.

Quando chegaram a casa, meus pais contaram-me o que a médium lhe disse e perguntaram-me se eu queria acompanhá-los a esse lugar, curiosamente também, eu que nunca os tinha acompanhado, não sei o que se passou na minha cabeça, disse-lhes que ia. Entretanto surge um problema, tínhamos que ir num Domingo, logo num dia tão importante para mim, dia de ir ao futebol, mas como tinha dada a minha palavra, lá fui.

O lugar era uma igreja, a igreja Maná na Praça de Espanha, Lisboa. Entramos e ficamos sentados bem cá atrás, tímidos, não sabia o que ia acontecer, verifiquei que muitos tinham a bíblia na mão, começa a reunião, com música, lembro-me de olhar para os cantores e em especial para as cantoras, eram todas bonitas; durante as músicas as pessoas na sala levantavam as mãos e eu olhava para cima e pensei: “O que estão a fazer? Mão levantadas?” mais tarde, aparece um homem a falar de Deus e a mandar ler a bíblia, mas como não tínhamos bíblia, apenas ouvíamos o que ele dizia.

Uma coisa estranha aconteceu, este homem, de 10 em 10 minutos bebia uma bebida, como estávamos longe e a bebida era escura, pareceu-me vinho, e nos meus pensamentos, dizia: “Este homem, daqui a pouco, cai para o lado bêbado.” Mas o interessante é que não caiu, até que mais tarde soube, que a bebida era cola-cola, foi entre estes pensamentos e entre a mensagem, que no final da reunião, quando esse tal homem pergunta: “Quem quer dar a sua vida a Jesus?” Não me perguntem como, só sei, que dei um salto na minha cadeira, e corri até ao lugar onde o homem estava e disse: “Eu quero.” Eu e toda a minha família estávamos juntos a dar a nossa vida a Cristo. Nesse dia, esqueci-me completamente do futebol, não me lembrei que tinha de ir ver o Benfica ao antigo estádio da Luz.

No final, uma senhora, que mais tarde veio ser a minha madrinha de casamento, ofereceu-me uma bíblia, que ainda hoje a tenho. Uma senhora que tornou-se muito importante na minha vida, a pastora Maria Emília, alguém poderá perguntar: “pastora? pastora não é bíblico.” Se é bíblico ou não, não me interessa, o que interessa é que esta mulher é daquelas pessoas que passaram na minha vida e que só me fez bem. Ela foi mais que uma pastora!

Quando chegamos a casa nesse dia, parece que flutuava, tinha uma alegria tão grande dentro de mim e uma paz, que esqueci-me, que a minha irmã estava doente. Mas pela primeira vez, desde há muito tempo, não via os meus pais tão alegres, lembro-me de eles se beijarem repetidamente no sofá da sala, algo que raro vê-los. A alegria regressou àquela casa. Este foi o primeiro e grande milagre! Andávamos à procura de um milagre para a saúde da minha irmã, e Deus, presenteou-nos com o milagre dos milagres: "nascemos de novo", o Espírito Santo de Deus entrou em nossas vidas e a paz que o mundo não conhece e que não se compra, entrou em nossos corações. Louvado seja Deus! Esta alegria e paz me tem acompanhado todos estes anos, esta alegria e paz, é a mesma que está hoje na minha casa, na vida da minha esposa e na vida dos meus filhos.

O interessante desta parte, da minha conversão, foi ver, como Deus lidou comigo e com os meus pais e irmã, na altura só tinha uma irmã, só mais tarde é que veio a Joana, a minha segunda irmã, fruto desta alegria que entrou em casa. Deus usou-se de uma médium para nos levar a um lugar onde o Evangelho se pregava, eu que nunca quis acompanhar os meus pais, dessa vez fui e logo num Domingo, dia sagrado para mim e o meu futebol. Como Deus age! De maneira a ir ao encontro das pessoas. Nos evangelhos, lemos, o modo como Cristo ia ao encontro das pessoas, ele sabe onde estamos. Há pouco tempo alguém dizia que: “temos de ir ao encontro dele”, mas sinceramente, Ele é que vem ao nosso encontro, porque de facto, poucos são os que o buscam. Ele, o Senhor procura e nos alcança com a sua misericórdia. Foi a misericórdia de Deus que nos alcançou. As pessoas não vão para o inferno por causa dos pecados, mas sim por rejeitarem o perdão, a misericórdia e o amor dele. Ele é o cordeiro de Deus que tirou o pecado do mundo. Dou graças a Deus, que eu e a minha família não o rejeitamos. O milagre que procurávamos para a minha irmã, tornou-se no milagre da salvação para a minha família.

Memórias de 30 anos de Evangelho.

14/12/2019 - José Fidalgo